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Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

_AF_6405.CR2Chama atenção um filme como Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) concorrer a nove categorias no Oscar, e ser o favorito a ganhar a estatueta de Melhor Filme, não pela sua qualidade como uma obra de arte, a qual é indiscutível, mas por ser uma história que ataca ferozmente toda a indústria cinematográfica de Hollywood e do teatro.

Riggan Thomas (Michael Keaton) é um ator que ficou marcado por ter estrelado três filmes de um super-herói chamado Birdman. Agora com 60 anos e frustrado com sua carreira, Riggan tenta se reinventar dirigindo e estrelando uma peça baseada em um texto de um renomado escritor. Riggan é atormentando por problemas psicológicos, o maior deles é uma constante alucinação com o seu próprio personagem Birdman, que é a sua própria voz interna, que o humilha constantemente.

O fortíssimo tom de ironia que circula por toda a história de Birdman já começa propositadamente na escalação de Michael Keaton, um ator que assim como seu personagem ficou marcado por ter interpretado um herói, o Batman, no cinema. Em mais um caso de a arte imita a vida ou vice-versa, Keaton também sempre tentou ser mais levado a sério como ator, apesar de ter feito uma sequência de filmes bem ruins, e  finalmente consegue isso com Birdman, uma atuação magnífica que o coloca como favorito ao Oscar de Melhor Ator.

_MG_1102.CR2O sarcasmo se espalha em cada detalhe da história, os personagens são personificações de tipos de pessoas existentes dentro da indústria cinematográfica e teatral. A atriz que deseja ser reconhecida (Naomi Watts), o ator alternativo e queridinho do momento (Edward Norton, simplesmente espetacular), mas que não consegue ter uma vida além de sua carreira, o empresário ganancioso (Zach Galiafakis) entre outros. A crítica, bem humorada, não se limita a Hollywood e ao teatro, principalmente a Broadway, mas também passa pelo próprio púbico, as redes sociais e a internet e a imprensa em geral, neste caso através de uma escritora de críticas teatrais que se tornou uma espécie de celebridade e que vive apenas de ofender o trabalho dos outros. O preço da fama surge através da filha de Riggan (a ótima Emma Stone), uma jovem perdida e ex-viciada em drogas que coloca a culpa de todos os seus problemas sobre a ausência de seu pai, mas para o qual trabalha como assistente e comicamente acaba se apaixonando exatamente por um ator.

O diretor Alejandro González Iñárritu é ainda mais corajoso na maneira de contar a sua história utilizando uma edição, com imperceptíveis cortes, impecável que faz o filme todo parecer um único e perfeito plano sequência. Inãrritu também usa a peça dentro da história tanto para fazer uma análise sobre seus personagens também como o seu principal cenário, brincando com o falso espetáculo das peças da Broadway, lindos no palco e na frente do público, mas sujo e decadente, tanto fisicamente como pelos envolvidos, nos bastidores. A trilha sonora de jazz é levada apenas pela bateria do mexicano Antonio Sanchez que usa seus pratos e bumbos tanto com delicadeza como com força em suas viradas no instrumento que dão um ritmo ainda mais rápido para a trama.

BoTUVoI1Somente quando Riggan Thomas encontra as asas de seu Birdman é que consegue sair deste universo que o destrói a cada segundo e abraça a sua ignorância, alcançando a verdadeira liberdade de ser uma pessoa e um artista. O questionamento mais profundo de Birdman é sobre a eterna, e ridícula briga, entre o cinema dito como o de arte contra o comercial, Inãrritu cita Robert Downey Jr. e seus Vingadores, joga o Homem-Aranha e os Transformers na tela como símbolos de uma indústria comercial e cita grandes escritores, atores e atrizes respeitados e a imprensa metida a intelectual como símbolos do mundo da arte. Coloca em discussão o quanto o público fica preso neste embate entre estes dois lados e também a opinião dos críticos e aos prêmios especializados, perdendo assim o livre arbítrio de ser sim capaz de gostar de Os Vingadores e ao mesmo tempo ser fã dos filmes Truffaut. Birdman através dos devaneios de seu protagonista  enxerga, como diz o seu próprio título, a inesperada virtude da ignorância, já dizia o velho ditado: a ignorância é uma bênção.

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Um comentário em “Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

  1. […] Cronenberg é incapaz de trazer a visão real sobre o que acontece dentro da indústria, o recente Birdman conseguiu de forma muito mais original e inteligente fazer uma sátira sobre […]

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